quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Quase...

A uma semana do treino nº 1 para a Maratona do Porto, Tróia é o sítio onde vou puxando por pernas e pulmões.

Ontem, ciclovia acima ciclovia abaixo, foram três quartos de hora de treino ao mais que satisfatório ritmo de 5:08.

Hoje, à uma da tarde e à falta de rampas, foram 40 minutos pela areia solta da praia. De boné, t-shirt e calções negros, porque nenhuma transpiração é de mais para quem ainda anda a transportar 79 quilos e 800.


Quarta-Feira, 03 e Quinta-Feira, 04 de Agosto de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Prescrições

A caminho dos 20 meses, a minha filha Inês está na idade de pôr à boca tudo o que vier com uma cor garrida. É por isso que não reservo a mesa-de-cabeceira para organizar os meus comprimidos. Já se ela estivesse perto dos 20 anos, o mais certo seria berrar-me ao ouvido um dia após o outro: “Pai, não se esqueça que este branquinho é antes do jantar. Ouviu, pai?” ou “O vermelho-e-preto é para tomar com água. Veja lá não se engasgue”.

É que já não ando para lado algum sem a Carnitina para queimar as gorduras, a Glucosamina e a Condroitína para a recuperação das articulações e a Indometacina para as dores do joelho. Decididamente, encontro-me num limbo pré-geriátrico: ainda não tomo o número de medicamentos de um velhote, mas já começo a correr como um. Hoje foram 30 minutos ao esforçado ritmo médio de 5:20. Estarei a prescrever?


Terça-Feira, 02 de Agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Tróia 01

Quando saí de casa, o ar de Tróia cheirava a terra molhada e trazia-me imediatamente à memória um outro mês de Agosto. Tinha sido em 2003 e marcara-me pela chuva de todos os dias. Estava nessa altura no Norte da Escócia.

Visto de uma perspectiva menos balnear, não deixava de ser no entanto (como diria o imorredoiro Gabriel Alves) um excelente dia para a prática da modalidade. Os aguaceiros tinham dado lugar ao tempo nublado e pude fazer com relativa tranquilidade os meus 17k. Estou a andar muito devagarinho (ritmo médio de 5:35), mas como o tempo é de pequenas vitórias, valeu ter conseguido fazer um treino progressivo.

Desde há 3 anos que estar em Agosto em Tróia é poder entrar num estágio informal. Aqui treino com regularidade e até perco peso. Desta vez, quero também sair daqui e ter voltado a descodificar os ritmos a que ando. É que, com a paragem, a confusão vai ao ponto de eu passar de 5:20 a 4:45 e estabilizar a 5:10 sem alguma vez me ter apercebido de que houveram mudanças de ritmo.


Segunda-Feira, 01 de Agosto de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

Os primeiros sete

Sete quilómetros debaixo do calor desmoralizante da hora do almoço. Os primeiros sete calçados com os Kayano 17. Que até são listrados a ouro.


Terça-Feira, 26 de Julho de 2011

domingo, 24 de julho de 2011

"Agora que ninguém nos ouve..."

Quando correr não equivale a treinar, penso com mais clareza. Penso na vida, na família, no trabalho ou até (redundantemente) na corrida. Hoje, enquanto fazia os meus sofridos 15k para recuperar ritmos antigos, foi uma dessas sessões.

E, como ninguém me ouvia, comecei a tentar fechar decisões: quais os ténis que iria comprar esta semana? Qual seria a minha maratona de Outono? E qual seria a marca em perspectiva?

“Bem, está decidido. Vou mesmo rebentar o budget e deixar a Nike para os calções e para as camisolas. Sapatos vão mesmo ser Asics. Material à séria. E se os Nimbus são mais para quem supina e para quem tem arco pronunciado, vão ser os Kayano. Se serão os 16 ou 17, fica por saber.”

“Entre Frankfurt, Dublin e Veneza, acho mesmo que a próxima maratona vai ser a do Porto. Faltam-me as multidões de Berlim e Paris, mas aqui gasto menos dinheiro (para compensar o estouro dos Kayano), corro com amigos e até tenho a mister à boca da meta”.

“Quanto a tempos, nunca estive tão atrasado à entrada do plano. Por isso, como estive parado três meses e como me rasgo todo para fazer 15k em 80 minutos, nem estou aqui para pensar em recordes. Mas, como ninguém nos ouve, até pode ser que mude totalmente de decisões. É que ir treinar ao sol do Alentejo às vezes faz-nos coisas estranhas…”


Domingo, 24 de Julho de 2011

domingo, 17 de julho de 2011

Sete dias na história de uma lesão

E à Segunda-Feira surgiu a luz. Primeiro, encarei-a com desconfiança. É que, ao contrário do resto das lesões mais ou menos prolongadas, não metia cirurgias, fisioterapias ou posologias. Era, estranhamente, muito mais simples que isso.

Com o antigo tartan do Estádio Nacional a descascar-se dia após dia, fui fazendo a minha meia hora diária pela relva do campo de futebol. Debaixo do calor que era opressivo à uma da tarde, tirei os sapatos. E, foi mais ou menos nessa altura que, três meses depois, recuperei a sensação de correr sem dores na perna direita. “Seria dos sapatos?! De uns sapatos com pouco mais de 100k nas solas?”

Logo ali decidi começar a treinar com uns sapatos diferentes. Na verdade, uns sapatos onde o conta-quilómetros já ultrapassava os 800k. Assim entrei na Terça-Feira na pista do Alto Rendimento do Jamor. E assim voltaria no dia seguinte ao mesmo local e com o mesmo calçado. Em comum aos dois treinos, a canícula do costume e a anormalidade de correr sem dores.

Mas foi ontem que tive a sensação de tudo estar a entrar na linha. No Monsanto, com a Rita em semana de glória e com o prazer de estar rodeado de companheiros na luta pela maratona. Entusiasmei-me e depois de fazer as minhas rampas, juntei-me ao time Amesterdão para quase 6k a mais do que estava escrito no plano.

Um exagero que fez dos 11k de hoje uma corrida onde as coxas pareciam estar ancoradas ao chão e o traseiro parecia ter o peso de um semi-atrelado. Quase uma semana depois, voltei a sentir o joelho direito. Mas também o joelho esquerdo, os tornozelos e tudo o mais que se sente num corpo que andava arredio da corrida. E que anda a meter quilometragem em cima de uns ténis que já há muito passaram a idade da veterania.


Domingo, 17 de Julho de 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Overweight 'n' overdressed

Eram meio-dia e vinte e dois de Domingo quando saí para a rua. Comigo levava 79,700 kgs e um tronco carregado de peças de roupa. Quentes. Para ver se transpirava mais alguns quilos do corpo para fora.

Aos poucos vão-se perdendo. Debaixo do calor, é mais fácil perdê-los. Assim fosse tão certo que o joelho ficasse em condições. Voltar a correr a um Domingo de manhã fez-me lembrar que, entretanto, o António Castanheira Alves, o Alexandre Monteiro, o Carlos Freitas e o Ruben Aragão Pinto vão começar a preparar a Maratona de Amesterdão. Godspeed.

Quanto a mim, enquanto à tarde descansava, atirei-me a uma tigela que tinha leite condensado, menta e chocolate. Hoje de manhã, com o ranger da balança, vi que o peso tinha voltado a casa.


Domingo, 10 de Julho de 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A crepitazye

Um novo diagnóstico: “A crepitazye na rótulye”.

Ele esfregou, esmagou, dobrou, enquanto falava, falava num idioma imperceptível. Eu ia abanando a cabeça como se percebesse. O António Castanheira Alves (que seria mais tarde esfregado, esmagado e dobrado) ainda apanhava algumas: “Mas é namorada dele ou não é?”.

Não contente com a coxa e com o joelho esquerdo, entreteve-se a agarrar-me os pneus que hoje são a minha barriga. E por muito que eu me explicasse (“Já não treino há quase três meses”), não me livrava de novo castigo ao ego: “Não corpo de maratonye. Muito pesado. Obstrupazye no joelho.”

Enfim, depois da consulta no cirurgião e da ressonância magnética que não apontavam nada pior do que uma bolsa de líquido na zona superior ao joelho, fui ontem ter com ele. Muitos já me tinham falado dele, mas ninguém me tinha preparado para o diálogo de ontem. Assim como tão cedo não esperava aquelas palavras: “Elmetacin e treno. Tu trenar. Na relva, na areia. Não estrada”.

Hoje fui para o Jamor. Corri meia hora e as únicas dores que senti foi de ontem ter sido esfregado, esmagado e dobrado. Por isso, amanhã vou outra vez. Por isso, já penso de novo em cenários como o da fotografia lá de cima.


Sexta-Feira, 1 de Julho de 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O Joelho

Não sei ao certo qual foi o momento em que começou.

Sei que a 25 de Abril, enquanto o Rui Lacerda e eu aquecíamos para a Corrida da Liberdade, lhe disse: “nunca antes tinha sentido o joelho. Mas agora cheira-me que há-de haver alguma altura este ano em que vou ter que encostar por causa dele.”

Bastar-me-ia fazer o troço da Pontinha até Carnide. Foi aqui que ele apareceu e que me fez seguir em ritmo de quase-marcha até aos Restauradores. Cinquenta minutos e dois segundos para 10k. Não era dor. Ou talvez fosse um pouco. Não dava para perceber bem.

Fosse o que fosse, não seriam treinos que iriam melhorar a situação. Parei e só me voltei a equipar no dia 12 de Maio. Desde a Maratona de Paris 32 dias antes, nem um treino tinha feito (apenas a Corrida da Liberdade). Mas não haviam diferenças: após dez minutos de corrida pelo Estádio Nacional lá o joelho voltava a avisar.

Próximo passo: consulta com o cirurgião. Que não tinha nada a ver com articulações. Provavelmente seria sinovite do joelho. Prescreveu descanso.

Fui descansando e no dia 20 passei pelo Monte da Galega. Ali andei às voltas. Animado por ver amigos do RB, fiz um treino relativamente rápido. Meia hora em que doeu, depois deixou de doer e após o banho doeu na mesma. Voltei ao descanso.

Ontem ao fim da manhã, a Fátima veio da rua e disse que devia ter havido uma corrida aqui perto. Eu já sabia. Era a Corrida do Oriente. Tinha decidido nem sequer ir lá ver os amigos. Já é suficientemente complicado ver o pessoal aqui a treinar no Parque das Nações. Então, arquitectei um plano: o caminho para o almoço em casa da minha sogra iria fazê-lo a correr. No pino do sofrimento pelo calor nem dei pelo joelho. Mas, quando lá cheguei, já não me consegui escapar do saco de gelo.

Há pouco uma amiga perguntou-me se eu já tinha decidido que maratona ia fazer no Outono. Não sei. Neste momento não sei de muito que esteja relacionado com a corrida. E isso é mais complicado de gerir que a própria dor. Que nem sequer é muito forte.


Segunda-Feira, 6 de Junho de 2011 (57 dias e 5 corridas depois da Maratona de Paris)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

No triunfo: a minha Maratona de Paris


Diz-se com frequência que uma maratona só começa depois dos 30 quilómetros. É mais uma daquelas frases feitas que até teria sentido se disséssemos que uma maratona só começa a doer depois dos 30k. Porque, mesmo se estivermos tranquilos física e mentalmente naquele ponto, tudo o que fizemos ou não fizemos antes de lá chegarmos poderá quase certamente determinar o que se passará no último terço da prova.

Em Berlim, em Setembro do ano passado, na maratona inaugural, também fui tranquilo até ao 38º. Só que tinha andado o dia anterior a passear na cidade a arrastar umas botas Timberland. Só que o meu pequeno-almoço tinha apenas sido duas maçãs. Só que fiz a minha parte mais rápida da prova numa altura errada. Então, a quatro quilómetros e picos do fim, fiquei sem quase nada no depósito. Parei duas vezes e, debaixo de uma chuva intensa, não consegui que a minha cabeça pusesse as minhas pernas a mexer. Isso só aconteceria no penúltimo quilómetro, após um providencial reabastecimento. Seja como for, frustrou os meus planos de fazer um tempo sub-4 horas. E isso fez com que me apresentasse ontem à partida do 35e Marathon de Paris com a marca de 4:03:59.

Já para Paris tudo se passaria de forma diferente. Treinei debaixo da atenção personalizada de uma super-Rita Borralho, fui sempre amparado pelos meus super-colegas na RB Running (alguns deles maratonistas também) e cheguei a este mês de Abril com a mente e a energia no ponto certo. Além do mais, a tarde e a noite de Sábado foram passadas a descansar no hotel e o pequeno-almoço na manhã da corrida meteu nutrição à séria (e não apenas maçãs).

Quando saí do metro em Charles de Gaulle / Étoile caí automaticamente nos braços de mais de 30 mil corredores. Podem dizer que tanta população perturba o ritmo e é verdade. Ao sexto quilómetro cheguei a estar parado porque a entrada numa rua era demasiado estreita para enfiar tanta gente. Mas o espírito, o espírito que vive uma prova destas é inigualável. Já o tinha sentido em Berlim, vi-o em Paris e não espero que NY e Londres sejam diferentes.

Seja como for, com mais ou menos travagens, cheguei a meio da prova com o corpo folgado e com uma passagem de 1:49:35 que estava 55” abaixo do tempo escrito na minha pulseira. Andava a um ritmo aproximado de 5:10/k, sem forçar e sempre a correr na parte da sombra. Para interesse estatístico, estava em 10.159º lugar.

Mas, logo de seguida, tive que me decidir parar. O peito do pé direito doía-me já há algum tempo e pensei que os atacadores estariam demasiado apertados. Desapertei, apertei e arranquei num pit stop que não demorou quase nada. Cinco, seis segundos. Contudo, nada tinha mudado e cheguei a pensar que tudo tinha sido feito rápido demais para ter ficado bem feito. Então, pela segunda vez em poucos minutos, a Avenue Dumesnil pôs-me de joelhos. Desta vez para uma paragem com mais cabeça. Reentrei na estrada sem que as dores desaparecessem e achei que o melhor seria ir andando sem prestar muita atenção. E, assim, entre a paragem na saída da Bastille e as duas idas à box, parei quase um minuto e meio (84” segundo o Garmin).

À passagem dos 25k, enquanto corríamos junto ao Sena, o ritmo mantinha-se pelos 5:10 e o cronómetro estava 53” abaixo do planeado. Pouco antes de deixarmos as margens do rio, com o quilómetro 30, sentir-se-ia a chegada de algum calor. O ritmo estava ligeiramente inferior e, ao passar com 2:36:49, tinha decrescido o meu avanço para o tempo planeado (que era agora de 11”). Estava aqui em 9.315º lugar.

Com 5:02, 5:01, 5:04 e 5:07 até ao 34º quilómetro começaria a ganhar terreno. Terreno esse que um abastecimento desastrado se encarregaria de fazer perder. Até então, tinha-os evitado e andado pelos meus recursos, mas nesta altura já a minha água era escassa e estava quente. Seria o meu primeiro abastecimento e teve o condão de me fazer demorar 5’29” para o 35º quilómetro. A pulseira de plástico dizia que eu ainda estava dentro do plano. Mas eram apenas 8 segundos, o desgaste começava a sentir-se nas pernas e estava a chegar o temido Bois de Boulogne.

Nunca ali tinha estado. Mas nunca me esquecerei. Tenho a sensação que nesta altura, com o calor a subir, a minha corrida eram mais os braços a puxar e as pernas a corresponder. Nesta zona é menos o público e o pelotão está fatigado. Para não cairmos na indolência geral, tive que procurar referências e tentar ir com eles. Mas, nunca se conseguia durante muito tempo. Aqui, nestes quilómetros, fiz a minha prova.

Com 5:09, 5:01, 4:56, 4:53, 5:00 e 5:01, consegui resistir ao andar do relógio e mantive acesa a luta para terminar dentro da marca de 3 horas e 40 minutos.

No entanto, o esforço de ter ultrapassado mais de 2.200 corredores em pouco mais de 11 quilómetros trouxe-me um último quilómetro de incerteza. O depósito já estava claramente na reserva e o ritmo baixara bruscamente para 5:17. No momento já não havia discernimento para fazer contas com o relógio. A exaustão era muito forte e tive que canalizar a minha cabeça para não deixar o corpo baixar de ritmo e para conseguir forças para aquela última série. Já na recta da meta, foi um alívio perceber que a marca que eu queria não ia fugir. O novo recorde já estava há muito tempo no bolso, mas eu queria um sub-220 minutos. Acabaria por fechar Paris com 3:39:30, o que significa ter retirado 24 minutos e 39 segundos a Berlim 2010.

Para o quadro estatístico completo, classifiquei-me oficialmente em 7.046º e tive uma classificação real em 6.986º entre os 31.169 que concluíram a prova.

Fecho o ciclo dizendo que acabei mesmo por conseguir sorrir para o Arco do Triunfo. À custa de uma boa luta e com a bênção dos Deuses da Maratona.